02 September 2005

Drama de muitos

Ontem acompanhei pelo noticiário o drama de três crianças com idades entre 5 anos e 8 anos(identificadas como chinesas nascidas na Nova Zelândia). Os pais das crianças vieram para cá com visto de turista e estão no País, acreditem, há quase 10 anos. Estavam, portanto, em situação mais do que ilegal - considerando que o visto de turista pode ser obtido por um período máximo de 12 meses, com algumas exceções. O pai, que trabalhava como pintor, foi deportado na véspera do Natal e a mãe está na prisão aguardando para, também, ser deportada. A questão é que as crianças têm o direito de ficar porque nasceram aqui, têm cidadania neozelandesa, são kiwis. O que fazer em casos como esses?

O advogado da mãe apelou para o teor humanitário que envolve esse caso e solicitou na Justiça que a mãe não seja deportada. Ele me pareceu um sujeito centrado quando a repórter perguntou porque a imigração deixou essa família ficar por tanto tempo. "Se eles tivessem sido deportados antes, as crianças não teriam nascido aqui", comentou a jornalista. O advogado disse que a imigração não pode ser culpada pelo fato de que os pais resolveram arriscar. Que esse não é um caso isolado e que acontece muito mais do que se imagina. A questão é que nem sempre é fácil localizar os imigrantes ilegais porque a própria comunidade onde eles estão inseridos os protege - isso vale para várias nacionalidades. No caso dessa família, por exemplo, amigos vinham escondendo as crianças para tentar adiar o inadiável.

Na minha opinião, a mãe deveria ficar. Eu entendo que as leis exigem para serem cumpridas e que a imigração está apenas fazendo seu trabalho. Mas, essas crianças nunca estiveram na China, eu não sei nem se elas falam chinês. Aqui, elas têm educação, sistema de saúde e tudo mais que o governo oferece gratuitamente. Eu daria a mãe o direito de ficar até que as crianças (todas elas) completassem 18 anos, mas não daria a ela direitos de cidadã neozelandesa. Ela ficaria, apenas, como uma guardiã das crianças, mas com direito a visto de trabalho para poder sustentar os filhos, afinal ela não poderia receber benefícios. Quando o mais novo completasse 18 anos, aí sim, ela seria convidada a deixar o País - eu odeio a palavra "deportar". Adultos, os três conseguiriam entender o processo e poderiam, até, optar por seguir também para China.

Sei que o problema é complexo e que antes era muito grande o número de mulheres que vinham grávidas para cá. Com o nascimento dos filhos, elas passavam a ter o direito de ficar. A lei mudou porque, realmente, não fazia muito sentido. A Nova Zelândia iria virar maternidade para todas aquelas que gostariam de vir morar no País, mas não teriam outra forma de tornar o sonho possível. Atualmente, inclusive, todos os formulários da imigração incluem a pergunta: "Você está grávida?". Quando eu preenchi minha primeira aplicação para renovar o visto de turista, lembro bem que não havia esse tipo de questionamento.

Com a nova lei, se a criança nasce aqui mas os pais não têm cidadania ou residência, ela é considerada como do seu País de origem, mas nascida aqui, como as crianças desse caso são identificadas: "chinesas nascidas na Nova Zelândia". Uma dupla cidadania meio difícil de explicar porque eu não sei bem como o sistema funciona.

Eu só espero que tudo termine bem para essa família. Mas, sem dúvida, a exposição de casos como esses faz com que as pessoas de juízo pensem duas vezes antes de ficar em situação ilegal por anos e anos e achar que passaram a ter direitos adquiridos com o passar do tempo.

4 comments:

gisele and new zealand said...

Gisa

Meus parabens pelo blog. Fico muito feliz em ler os assuntos e fico mais informada. Eu realmente adoro saber o que se passa por aqui, ainda mais morando aqui.
Saiba que conquistou mais uma pessoa.
BJs
Dani

Elias said...

Gisele,
estes assuntos que "catucam" as nossas emoções e sentimentos são difíceis de lidar. Principalmente envolvendo estas duas figuras mãe e filhos menores que provocam piedade e compaixão.
Como dizes, espero que não seja aplicada somente as letras frias da lei e que o assunto tenha um final feliz.

Beijos,
Elias

Gisele Scantlebury said...

Dani, obrigada por ler meu blog. Bom saber que estou conquistando novos leitores. Beijos e a gente precisa se ver, ne? :)

Gisele Scantlebury said...

Pai, o problema é que não é um caso isolado, aí, realmente, complica para a imigração tomar uma decisão que não seja fria. Mas, enfim.. Não ouvi mais falar sobre o caso.