18 October 2006

Entrevista...


Já há algum tempo eu tinha pensado em fazer uma entrevista com alguém recém-chegado aqui no Japão. Queria uma pessoa de uma cultura diferente, mas de todas que conheci até agora estão aqui há mais tempo do que eu. Então, resolvi entrevistar Paul (meu marido). Ele foi a "vítima" perfeita porque, embora moremos juntos e tenhamos chegado juntos em Tokyo, descobri que nossas impressões, saudades e dificuldades são diferentes. Aí, alguns trechos da entrevista (vou deixar em formato ping-pong mesmo):

Gisele: Paul, você está gostando de morar aqui em Tokyo?
Paul: Estou sim. A cidade é muito interessante, tem sempre coisas para fazer, lugares para conhecer. Bem diferente de Auckland (Nova Zelândia) onde tudo era meio parado.

G: Mas, você sente falta da Nova Zelândia?
P: Sinto falta, às vezes, do silêncio e da tranquilidade que eu tinha lá. Mas, não da cidade em si. Também sinto um pouco de falta de ter meu carro, de poder ouvir música enquanto dirigia de casa para o trabalho e do trabalho para casa.

G: Andar de trem e metrô foi, então, uma grande mudança para você?
P: Foi sim. Eu era o tipo de pessoa que ia na loja de conveniência da esquina de carro. Eu não andava tanto como aqui, o que é bom, lógico. Também nunca usei transporte público na Nova Zelândia. Tenho carro desde os 17 anos. Em parte porque transporte público na Nova Zelândia não é confiável e eu também me deslocava muito no trabalho, para visitar clientes.

G: Você já percebeu alguma mudança física por conta desse novo hábito?
P: Já sim. Nesses dois meses, eu emagreci quase 7kg. Esse foi o lado positivo, mas tem uma coisa ruim também. A consequência ruim é que por conta das escadas, que são muitas nas estações, eu notei recentemente que meu tendão de Aquilis está meio inflamado e sei que isso pode ser perigoso.

G: Mas, qual o problema com as escadas?
P: Para você que tem pé pequeno, nenhum. Mas, fica complicado para mim apoiar meu pé todo nos degraus, que são um pouco estreitos. Aí, eu acaba forçando meu calcanhar. Se não melhorar, vou ter que procurar um médico antes que o problema se agrave.

G: Alguma outra mudança drástica?
P: Como você sabe, eu parei de fumar.

G: Mas, aqui no Japão quase todo mundo fuma. Eu nunca considerei a possibilidade de você parar de fumar aqui. Deve estar sendo muito difícil...
P: O problema é que aqui você não pode fumar em qualquer área ao ar livre. Precisa procurar os locais específicos e isso meio que me encheu o saco. Na Nova Zelândia, você não pode fumar em ambientes fechados, mas você é livre para fumar em qualquer lugar aberto. Aqui parece que é o contrário. Até McDonald's tem áreas para fumantes, mas confesso que, mesmo sendo fumante, não acho legal fumar em ambientes pequenos. (a entrevistadora não-fumante agradece!)

G: E com relação à língua? Como você tem feito para se comunicar?
P: Eu consigo tudo o que quero apontando. Mas, teve uma situação engraçada. Eu comprei um muffin e queria manteiga. Aí, eu vi uma torrada com manteiga em cima e apontei para a vendedora. Eu estava tentando explicar para ela que queria a manteiga. Ela entendeu que eu queria a torrada com a manteiga. No final, paguei pelo muffin e mais a torrada com manteiga.


G: Em linhas gerais, portanto, podemos dizer que sua adaptação está sendo boa?
P: Melhor do que eu esperava, com certeza.

G: Quando seu contrato acabar (em dois anos) você volta para Nova Zelândia?
P: Não sei se a empresa vai me oferecer a possibilidade de renovar o contrato. Se isso acontecer, vou pensar direitinho, avaliar e conversar com você, lógico. Mas, não pretendo voltar para Nova Zelândia. Penso que daqui poderíamos ir para outro lugar, mas ainda não pensei onde. Como eu costumo dizer: "a gente atravessa essa ponte quando chegar nela".

11 comments:

Karina Almeida said...

adorei a entrevista com o paul! acho legal ouvir os outros estrangeiros porque, certamente, as impressoes deles sao diferentes das nossas ne?

essa historia do pe... nunca imaginei uma coisa dessas!

mas fico feliz de saber que ele esta gostando do japao. e espero que goste cada vez mais. voce tambem!

Margot said...

oi Gisele, como sempre eu xeretando seus posts...

Ainda estou procurando serviços por aqui, quase que eu consigo trabalho, mas ainda não era para ser meu.

Legal, sua entrevista com Paul.
A gente observa que os estrangeiros adoram o Japão, essa loucura de Tókyo. Mas, fora os grandes centros, acho que o Paul ia gostar de morar no interior. Eu morei em muitos lugares bem distantes...onde meu vizinho tinha vacas no quintal, tinha cachoeiras de águas bem limpinha...
Mas, pra diversão é melhor em Tókyo mesmo.
beijos

Anonymous said...

E aí Gisele, o melhor da entrevista: o entrevistado ter deixado de fumar. Espero que a entrevistadora "fique no pé do bichão" para não ter uma recaída e voltar a fumar.
Um beijo enorme do seu pai e ex-fumante.
Elias

Gisele Scantlebury said...

Kari, a inflamacao do tendao me surpreendeu um pouco tambem. Passei a observar como ele sobe os degraus da escada e, realmente, ele faz esforco sim porque nao consegue apoiar o pe todo. Uma coisa. Quanto a gostar de Tokyo, acho que nos dois estamos curtindo muito a nova morada. Nao temos do que reclamar nao.

Margot, estou aqui na torcida. Como voce disse, esse ainda nao era o seu. A gente se ve no sabado, ne?

Paizao, eu to dando o maior incentivo. E isso significa: nao tocar no assunto, ter paciencia quando ele fica um porre e tentar fazer com que ele nao fique entediado. Hoje mesmo (quarta) ele ja estava querendo programar o final de semana. E assim vamos, a todo vapor! Um beijo enorme para voce. Em breve deveremos definir quando vamos ao Brasil. Aguarde!

stella said...

menina, sábio paul. a gente atravessa a ponte quando chega nela. legal.

Gisele Scantlebury said...

Stella, eu adoro essa frase. Sei que temos a nossa em portugues: "nao vamos morrer de vespera", mas essa tem todo um sentido poetico. Eh uma das minhas expressoes favoritas em ingles. :p

Anonymous said...

Que gracinha, adoreiii! Olha so, eu estou com minha amiga japonesa aqui e ela disse ue butter e butter mesmo, knife e knife, fork e fork, e spoon e spoon...
Bom, to dando risada, porque ela esta aqui e esta me falando que ela poderia ter falado butter e a pessoa entenderia...Risos

Vanessa Berry

Anonymous said...

Eta Gigi adorei a entrevista do Paul, e ele ate parou de fumar e perdeu 7 kilos, interessante o como ele parou de fumar hahaha... agora amei dele falar do futuro de vcs, "a gente atravessa essa ponte qndo chegar nela" beijocas enormmmmessss da Veronica xoxo

Raquel said...

Adorei a entrevista com Papou! Homem alto aqui sofre mesmo. Meu maridão, que é mais baixo do que o Paul, vivia batendo a cabeça no batente da porta lá de casa. E eu garanto que ele não tem nada a mais na testa, não!

Gisele Scantlebury said...

Vanessa, butter, fork e knife podem até serem escritos da mesma forma, mas a pronúncia é diferente. Vou pesquisar a pronúncia "certa" e depois te digo. É como se a gente falasse meio errado. É engraçado!

Vero, adoro quando você deixa comentários aqui. Paul está mesmo determinado a manter uma vida mais saudável. Quando ele voltar da Tailândia vamos começar a ir na academia juntinhos, como fazíamos aí na Nova Zelândia.

Quel, Paul também bate a cabeça de vez em quando. E, como você, também garanto que não tem nenhuma saliência na testa dele. :p

a chata said...

Oi Chuchu Cosmopolita!

Que bonitinha essa entrevista.
Estou a espera daquele post, onde vc eh a entrevistada.

Beijo grande
E desculpa por... vc sabe.